Começa a guerra do armário... O filho saiu de dentro e o pai
pega a vassoura para empurrá-lo de volta. Quase sempre é assim: assumimos aos
pais e a loucura toda vem. É um gritando para defender suas necessidades e
outro buscando defender seus valores. São valores, são preocupações com a
sociedade, são medos e, também, preconceitos. Todos querem gritar mais alto...
Mas se esquecem de que o processo é complicado para as duas partes.
Esse momento da revelação será muito delicado. Não existe
uma hora certa, não existe um local apropriado. Creio sempre que o melhor é o
mais reservado e da forma mais franca. Os dias que se seguem podem ser (e
geralmente são) de muito questionamento, muita dúvida, raiva, gritaria... Para
os pais, começa do o processo de luto. Sim, luto. “Mas ninguém morreu”! Podemos
pensar em meio a nossa raiva. Mas morreu sim... Não o filho, mas as
expectativas que os pais tinham para o futuro do filho. Na cabeça deles, não
haverá mais casamento (bom, essa parte vai ser diferente mesmo), não será
possível ter netos, a faculdade, o futuro profissional... “Meu filho vai se
perder no mundo”! Eles negam a realidade, ficam nervosos, buscam culpados, se
deprimem, querem arranjar uma forma de mudar, negociar a “cura”... e só para
com a aceitação. Algumas famílias resolvem isso em dias, outras precisam de
semanas, meses, anos.
Por outro lado, o filho (ou filha) não consegue entender
como e por qual razão seus pais não entendem. “Será que só isso é capaz de
mudar o amor que meus pais têm por mim”? pode começar o processo de revolta ou
o sentimento de rejeição. Muitas vezes, acabam xingando, se revoltando, batendo
de frente... Ou voltam a se anular, e passam a passar pelo processo de “des-aceitação”.
Tudo o que precisou fazer para gostar mais de si por ser “diferente” (comparado
ao que a sociedade impõe - não ao que é natural). É cobrança de ambos os lados.
Gritaria. E no processo de um tentar enfiar a verdade goela abaixo do outro...
Ninguém se escuta e os dois lados se machucam cada vez mais.
Pais, um conselho: não é impondo seu poder que você irá
conseguir dialogar. Escute seu filho, busque aconselhamento, converse com psicólogos,
amigos... Entenda o processo real. Abandone nesse momento o orgulho, os
valores, os pré-conceitos.
Companheiro de armário: não é forçando suas ideias que você
irá conscientizar e mostrar que nada mudou... Até porque mudou. Não você, mas a
ideia que tinham do seu futuro. Não é do dia pra noite que a aceitação veio. Você
precisou de tempo para entender o que acontecia, muitos de nós (eu inclusive)
precisamos de tempo para nos aceitar... Eles também precisam.
Entendam, não estou dizendo que devemos aceitar as
expectativas e mudar o que somos. Mas elas foram criadas. Foram quebradas. Precisam
ser alteradas. Expectativa é algo natural para aqueles que amamos. Se não
esperamos nada de alguém, esse alguém não nos é tão importante.
Por outro lado, pai/mãe... Entendam: seu filho não está
fazendo isso de pirraça. Tem muito em jogo para ser só uma brincadeira. Seu
filho só está buscando a felicidade, da maneira dele. É difícil, e ele sabe. O
mundo hoje é mais aberto, mas preconceito ainda existe. Mas a escolha é dele.
Não do que ele sente. O desejo é biológico, ele não pode escolher entre sentir
aquilo ou não. A escolha que ele fez, na verdade, foi a de ser feliz. Foi a
escolha de não viver uma farsa. De não fingir ser o que não é. É necessária
muita coragem para se fazer isso. É para poucos. Merece muito respeito e apoio,
pois não sabemos o que enfrentaremos à frente. Eu costumo dizer que imaginar os
desafios na terceira pessoa dá medo... O que dirá na primeira pessoa. Sei, que
como pais, tudo o que querem é o melhor. Desejam que seu filho não sofra. Têm
medo dos perigos, riscos, desafios... Nós também... Mas temos mais medo de não
sermos felizes, completos, de não sermos nós mesmos.
Essa foi nossa escolha. Tudo o que sempre pedimos é
respeito. Se você está passando ou conhece alguém passando por esse processo,
tudo o que peço é... Respeitem-se e lembrem-se do carinho que deve existir
entre vocês.
Amor e Respeito, EU SOU!